É ator, o manipulador?

A partir do início dessa ruptura, o ator veio aparecendo cada vez mais ao lado do seu boneco, ocupando assim diferentes funções que não mais a de animador (manipulador) apenas. Os bonequeiros se inspiraram no folclore, nos anos 50, nas brincadeiras de criança, a partir dos anos 60, para criarem estilos, estruturas de jogo cênico e fonte teatral. Aos atores, passou a caber personagens que manipulam bonecos, como crianças brincando, vendedores de uma loja de brinquedo ou de uma feira, palhaços com suas malas de objetos. Ou seja, uma necessidade de representar as cenas em que os manipuladores estão expostos. Com o passar dos anos e das produções, isso deixou de ser uma necessidade nos espetáculos com animação á vista.

            Nesse teatro em que há múltiplos meios de expressão, em que a metáfora passa à imagem poética da linguagem teatral, a principal reforma do teatro de bonecos punha em primeiro plano o jogo do ator. Esse cruzamento de gêneros pareceu à Jurkowski o surgimento de um terceiro gênero, oriundo também de um teatro desmistificado, cujas maneiras são reveladas ao espectador, agora, consciente da artificialidade do teatro e da especificidade do boneco.

 

Mas quem é esse atuador?

            Se o teatro de bonecos, inserido no campo das artes dramáticas (afinal é teatro), deve cumprir regras de um jogo cênico – como disse o tcheco Erik Kolar[1], que contenha conflito, que produza essa ou aquela emoção a quem assiste, que comunique alguma mensagem, que tenha ações desenvolvidas e personagens definidos, que tenha uma linguagem – quem conduz o jogo, o atuador na função de intérprete, que emprega vida aos personagens, mesmo que sejam objetos, é ator. Não mais manipulador apenas. Mas também não mais ator apenas.

            Muitos nomes foram usados para designar esta função desde que a cena passou a ser compartilhada. Segundo Jurkowski, depois da II guerra os bonequeiros poloneses passaram a chamar seus teatros de “Teatros do ator e do boneco” e na Tchecoslováquia, em 1965, abriu-se um debate teórico cujo tema foi: “Ator com boneco ou manipulador”.

            Ana Maria Amaral, diretora do grupo Casulo, de São Paulo, no Ator e Seus Duplos, questiona: “Ator-manipulador, que tipo de ator é esse?” E ao longo deste livro propõe uma série de atividades de treinamento para o ator-manipulador, ou para o ator que quer trabalhar com animação, desde a máscara até o objeto utilitário. Mas, para ela. Esse ator-manipulador, se visível, deve ficar no limite da neutralidade.

            Marcos Malafaia, um dos diretores do grupo Giramundo Teatro de Bonecos, de Minas Gerais, em 2006, em Jaraguá do Sul, afirmou acreditar que, na contemporaneidade, o animador é aquele que fundamentalmente se caracteriza pela capacidade de entender, ter habilidade de construir, articular, empregar movimento, animar formas plásticas. Não necessariamente um ator. Propõe uma nova nomeclatura: Cineplastista. Este poderia animar um ator, um stop-motion, um objeto. Consideremos que o Giramundo hoje é um grupo que ultrapassa as fronteiras do teatro, dialogando com a TV, o cinema e outras mídias.

 

É ator

            Acredito, no entanto, e estarei aí concordado com vários outros (Jurkowski, Caroline, Margareta, Baixias, Beltrame, Parente, Balardim, etc) que esse fulano, atuador do teatro de animação (numa nomeclatura abrangente, proposta por A,M.Amaral) é ator.

            É ator porque representa um personagem, ainda que esse personagem seja ele mesmo, o ator, ou o manipulador. Não será um ele cotidiano, mas um ele elaborado para aquele momento, quase como um performer ou como o ator no teatro de Tadeuzs Kantor[2], que confunde as noções de ator e personagem, sendo o ator ele mesmo no palco. Nas encenações do grupo In Bust, talvez isso também se aproxime das pretensões de Brecht para o ator, sem ilusionismos, onde o personagem não é muito “crível”. O personagem do ator é construído a partir do ator, compondo-se aí às linhas de características propostas para o personagem vindas das necessidades da dramaturgia. O ator não se esconde atrás do personagem, não há a ilusão de torná-lo verdade. O espectador identifica o ator mostrando um personagem. Também, à semelhança do que propunha Brecht, há no ator do In Bust uma alegria, um prazer evidente ao atuar. Um divertimento lúdico.

            Esse jogo, porém, mesmo que pareça dicotômico, parece resvalar no que Jurkowsky comenta sobre o que os Stanislavskianos[3] nos anos 60 falavam sobre o ator no teatro de bonecos:

 

        Não podemos utilizar o conjunto do sistema de Stanislavski no teatro de bonecos, mas isso não significa, por outro lado, que não possamos utilizar alguns de seus elementos, sobretudo os que têm relação com os estados de criação interior, ou seja, a técnica do jogo interno, sem esquecer a técnica do jogo externo. O que um bonequeiro deve, sobretudo, reter de Stanislavski, é seu postulado de fé ingênua. O bonequeiro deve permanecer uma criança, deve acreditar no maravilhoso e não perder seu talento para o jogo, seja para representar um dragão, um duende ou a lua.

(apud Jurkowski, em Metamorphoses, pg 24)

 

            O ator, no In Bust, brinca, tanto quanto brinca uma criança, acredita na brincadeira, leva-a à sério pois fica atento ao jogo. É essa “seriedade” que permite a este jogador a relação equilibrada com o boneco, um neutralizar-se quando da importância do inanimado para a cena, direcionando o foco para este e tomando de volta quando a dramaturgia pedir, quando a brincadeira pedir.

           É ator-manipulador

            Mas volto à nomenclatura ator-MANIPULADOR, como é denominado o atuador do grupo In Bust. Ana Maria Amaral, no seu livro Teatro de Formas Animadas, afirma que o ator-manipulador não tem a presença do personagem, é neutralizado pelo boneco[4]. Porém, percebo que de maneira geral o termo se confunde com ator-ANIMADOR[5], e que ambos são terminologias, entre os teóricos da área, que denominam o atuador que manipula bonecos. Ou seja, quem está num espetáculo de bonecos manipulando e “dando vida” aos personagens bonecos são atores-manipuladores, mesmo que não apareçam em cena, como os mamulengueiros ou os marionetistas, por exemplo[6].

            No entanto, sem ainda ter encontrado diferenças nos termos ANIMADOR e MANIPULADOR (agregada a palavra ATOR), gosto da lembrança de Joan Baixias[7] sobre a palavra MANIPULAR, citada por Caroline Holanda, que numa reflexão sobre sua prática de ensino no Instituto de Teatro de Barcelona, lembra que o verbo manipular significa “trabalhar com as mãos”, pois acredito que é, no In Bust, o que diferencia o atuador da função pura de ator e que o diferencia de atuadores de outros grupos de teatro que utilizam bonecos: A manipulação. Há a busca do emprego do movimento e da qualidade deste, mas essa ilusão de vida, a ânima, não é a primeira preocupação do grupo na encenação. Essa propriedade de “emprestar” vida ao boneco vem da habilidade manual desse atuador. Considerando, porém, que mesmo que a mão seja o elo principal entre o ator e o boneco[8], o movimento empregado ao objeto é fruto de uma presença corporal adequada. E esse movimento inicia na base corporal do ator, que, via de regra, é o pé. Assim, então, creio que aproximo esse entendimento ao atribuído a esse termo por Paulo Balardim[9], referindo-se ao meio usado para movimentar o objeto, buscando uma das acepções encontradas no Dicionário Aurélio – séc. XXI: Fazer funcionar; por em movimento; acionar.

            Se, concordando com outros já citados, chamo o atuador do In Bust de ATOR, prefiro agregar este termo ao termo MANIPULADOR. Sem querer “fechar” conceitos e apenas por entender que a animação, essa ilusão, no In Bust, seja conseqüência da atuação corporal do manipulador, e por já estar acostumado com essa denominação, fica: ATOR-MANIPULADOR. A função, que não é a do ator e não é a do manipulador, que extrapola a atuação ou a manifestação de um personagem através do ator, presente na cena, contracenando com outros atores. Que também extrapola o manifestar-se através de um objeto, mesmo que, como manipulador, o atuador esteja presente (visível). A função que junta essas duas maneiras de atuar, que pode se traduzir pelo personagem do ator e o personagem do boneco (objeto), que estão em cena juntos e que “dependem” um do outro. Assim, aqui, para forma de entendimento desse raciocínio, proponho uma separação entre os termos: ATOR será o atuador que aparece na cena como suporte privilegiado, com um personagem e não manipula bonecos; MANIPULADOR será o atuador que manipula o boneco, empregando-lhe expressão, mas não aparece; e ATOR-MANIPULADOR será o atuador que está em cena como personagem e como manipulador de bonecos, dividindo o suporte privilegiado da cena. A todos chamarei de atuadores, como termo generalizante.

            O “fazer funcionar”, nesse teatro com bonecos, vai além do fazer o boneco se mexer e estar visível ao público. “Empregar movimento” não é o todo do trabalho de interpretação do ator-manipulador. Ele distribui, desde a criação, sua carga de intérprete aos personagens executados por ele, o seu próprio e o boneco. Na função de ator, como um personagem, deve atribuir-lhe de todas as características psicológicas e físicas exigidas por este. Na função de manipulador, emprega esta carga interpretativa ao boneco. Como ator-manipulador, faz as duas ao mesmo tempo, ou em intervalos, as vezes imperceptíveis a quem vê, entre uma função e outra. Alem disso, nesse sistema, em permanente comparação com o ator, a especificidade do boneco é evidenciada permanentemente e deve sempre fazer parte desse jogo. Essa relação, rica em possibilidades, exige do ator-manipulador maneiras específicas de se portar em cena, de acordo com o que se quer dessa relação, com exigências técnicas para que a competição entre boneco e ator, se houver, seja fruto da dramaturgia.     


[1] do Metamorphoses, pg 24, Henryk Jurkowski

[2] Tadeuz Kantor preferia trabalhar com não atores, pessoas sem experiência ou algum trabalho de construção de personagem, o que levava a uma representação de si mesmo.

[3] Seguidores de Stanislavsk

[4] Ana Maria Amaral; Teatro de Formas Animadas (pg 73)

[5] Ou até ator-TITERITEIRO, como diz Valmor Nini Beltrame no seu estudo “A arte do ator-titeiteiro”

[6] Não quero, de maneira nenhuma, sugerir que o mamulengueiro ou o marionetista, ou o manipulador de bonecos que não aparece, não sejam atores. São atores, numa perspectiva diferente do ator que está em cena como personagem, atuando através do objeto.

[7] Professor no Instituto de Teatro de Barcelona, foi diretor da companhia Teatre La Claca.

[8] No caso das encenações do In Bust. Mas poderia ser o braço, os pés e até a boca, como se vê n’O Princípio do Espanto, do Morpheus Teatro 12 de São Paulo.

[9] Relações de vida e morte no teatro de animação, pg. 67.

Responses

  1. o texto é fóda pra caralho

  2. q merdaa

  3. o texto e muito grande

  4. ué naop sei responder merda
    e´ator
    ou manipulador
    a eu acho que ele é manipulado…

  5. gosto de ler textos como estes achei uma beleza eses trabalhos de teatro

  6. adoro isso muito criativo e divertido muito bom parabéns…

  7. eu acho isso muito legal


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