1º Artigo

O Atuador “InBusteiro”

(enviado para Henrique Sitchin na possibilidade de compor seu novo que trata da presença do ator na cena com o boneco)

Desde 1997 o In Bust Teatro com Bonecos propõe esse jogo em cena, do ator-manipulador sempre presente, revelando os suportes da manipulação, dividindo a cena com o boneco. Jogo que aparece em 13 dos 14 espetáculos montados pelo grupo, talvez como resquício de experiências anteriores de cada um dos atuadores “inbusteiros”.

Se o teatro de bonecos deve cumprir regras de um jogo cênico, quem conduz o jogo, o atuador na função de intérprete, que emprega vida aos personagens, mesmo que sejam objetos, é ator[1]. Mas, no In Bust, é ator porque ele mesmo representa um personagem, ainda que esse personagem seja ele mesmo, o ator, ou o manipulador. Não um ele cotidiano, mas um ele elaborado para aquele momento, quase como um performer ou como o ator no teatro de Tadeuzs Kantor[2], que confunde as noções de ator e personagem, sendo o ator ele mesmo no palco.

Mas ele não é somente ator, pois também manipula bonecos. Gosto da lembrança de Joan Baixias[3] sobre a palavra MANIPULAR, que significa “trabalhar com as mãos”. Pois acredito que, no In Bust, é o que diferencia o atuador da função pura de ator e que o diferencia de atuadores da maioria dos grupos de teatro que utilizam bonecos: A manipulação. Há a busca da qualidade do movimento, mas a ilusão de vida, a ânima, não é a primeira preocupação do grupo na encenação. Essa propriedade de “emprestar” vida ao boneco vem da habilidade manual do atuador. Considerando, porém, que mesmo que a mão seja o elo principal entre o ator e o boneco[4], o movimento empregado ao objeto é fruto de uma presença corporal adequada – sem esquecer que esse movimento inicia na base corporal do ator, que, via de regra, é o pé. Por isso, sem querer “fechar” conceitos e por já estar acostumado com essa denominação, prefiro chamar o “inbusteiro” que está em cena de ATOR-MANIPULADOR. Como termo genérico, uso ATUADOR.

O Ator-manipulador, nesse teatro com bonecos, distribui, desde a criação, sua carga de intérprete aos personagens executados por ele, o seu próprio e o boneco. Na função de ator, como um personagem, deve atribuir todas as características psicológicas e físicas exigidas por este. Mas a função em questão extrapola a atuação ou a manifestação de um personagem através do ator, presente na cena, contracenando com outros atores. Na função de manipulador, emprega a carga interpretativa ao boneco. Mas, o assunto que trato também extrapola o manifestar-se através de um objeto, ainda que esse manipulador esteja visível. Como ator-manipulador, faz as duas ao mesmo tempo, ou em intervalos (às vezes) imperceptíveis a quem vê, junta essas duas maneiras de atuar, que pode se traduzir pelo personagem do ator e o personagem do boneco, que estão em cena juntos, “dependem” um do outro e dividem o suporte privilegiado da cena.

No In Bust, o personagem do ator é construído a partir do ator, apresenta características do ator que o encarna, compondo-se às linhas de características propostas para o personagem, vindas das necessidades da dramaturgia. O espectador identifica o ator mostrando um personagem. Talvez isso se aproxime das pretensões de Brecht para o ator, sem ilusionismos, onde o personagem não é muito “crível”. O ator não se esconde atrás do personagem, não há a ilusão de torná-lo verdade.

E se formos identificar características de cada um dos personagens criados pelos Atores-manipuladores do grupo In Bust, presentes em todos os espetáculos de repertório, perceberemos uma linha comum entre cada um. No fundo dos personagens de cada um dos atuadores há uma única base de construção, uma linha-base que os unifica, como um facilitador para o trabalho do atuador – talvez por trabalhar com repertório e apresentar muito todos os espetáculos, busca-se uma zona de conforto para a atuação[5]. Os personagens dos bonecos, como extensão de quem manipula, sofrem o mesmo. Há, então, um coabitar harmoniosamente[6] entre personagens, não somente entre ator e boneco. Mas, sendo formalmente diferentes um do outro, o que se percebe é que o personagem do boneco expõe características do personagem do ator-manipulador, como se este se aproveitasse das possibilidades daquele para dizer ou fazer o que não poderia, reagindo a determinados estímulos da cena como extensão ou subterfúgio à reação que seria do personagem do ator.

Hoje no In Bust, percebe-se que o atuador precisa estar atento a si, ao seu personagem, ao outro atuador, aos bonecos (seus e dos outros), aos objetos referentes a cada universo (do ator e do boneco, de acordo com a dramaturgia), ao espaço cênico (o fictício e o real) compartilhado por todos os elementos, à platéia. Essa distribuição da atenção é uma troca de informações permanente entre ator(es)-manipulador(es), boneco(s) e platéia para a realização do espetáculo. Uma “conversa” entre todos, conduzida pelo ator-manipulador, que, sempre presente e visível, mostrará ao expectador para onde deve olhar, quem ou o quê é importante na cena, o quê ele deve focar.

Há uma presença corporal adequada para isso. Uma postura apropriada para que os personagens do ator e do boneco apareçam na hora certa, mesmo que seja ao mesmo tempo. A neutralidade, na ponta dessa postura, é uma demonstração de respeito às impossibilidades do boneco diante do atuador. Mas, se ator-manipulador e o seu manipulado dividem a mesma cena, sendo ambos importantes para a trama, carecendo assim da atenção do espectador, essa neutralidade será pertinente à relação entre ambos, com o atuador saindo e entrando do estado de neutralidade de maneira quase imperceptível. E mesmo estando no jogo, envolvido numa espécie de inocência infantil da brincadeira, esse envolvimento deve ser racional e a atitude de neutralidade consciente, para que se estabeleça um exercício também do público em relação ao foco conduzido pelo ator manipulador, sem confundi-lo, mas permitindo-o a escolha do seu próprio foco.

Como um reforço à neutralidade do ator-manipulador, o foco conduz às importâncias da cena. O atuador precisa indicar a importância da cena. No geral, com o olhar. Mas, assim como manipular é resultado de uma postura corporal adequada, o foco poderá ser conduzido por um posicionamento físico que o indique. Ator e boneco podem direcionar esse foco. Dependendo da cena apresentada, todos os personagens que a compõem devem focalizar, conduzindo o olhar do espectador.

Nas encenações do In Bust, uma estratégia para indicar a importância da cena, além da neutralidade e do foco direcionado, foi manter o ator-manipulador sempre uma linha atrás do boneco em relação à platéia. O grupo batizou isso de Meridianos de Atuação, numa referência às linhas traçadas para precisar localizações no globo terrestre. São linhas imaginárias, como na geografia, traçadas no palco[7] paralelas ao fundo, cruzando de uma lateral a outra. Pra começo de encenação, há sempre a linha do ator-manipulador e a linha do boneco, a primeira atrás da segunda. Mas o que vai se configurando é que quanto mais perto do público, mais importante pra cena. O que está atrás está fora de cena, ou apenas é menos importante. Ao compartilharem a importância da cena, ocupam a mesma linha. Esse posicionar-se em relação ao boneco durante a encenação, ao longo dos espetáculos realizados, foi ficando espontâneo e inerente ao trabalho do atuador do grupo.

A compreensão da importância da cena e da fragilidade do boneco em relação ao ator leva à utilização consciente dos meridianos de atuação associados à neutralidade e ao foco direcionado. Isso permite aos atuadores e à direção muitas possibilidades para o jogo nas encenações, inclusive pra brincar com as linhas imaginárias (criando perpendiculares ou diagonais, por exemplo) e com o direcionamento do foco.

Ao ator-manipulador do In Bust ainda atribuo uma pré-disposição ao improviso. Ao se envolver seriamente no espetáculo como jogo divertido, o “inbusteiro” deixa claro que o que vai acontecer ali é muito mais resultado das condições do momento presente que de períodos de preparação e ensaios. A proposta sempre é brincar. É o que é dito entre o grupo antes de entrar em cena. Além da tradicional “Merda”, quando se faz a roda, de mãos dadas, pede-se um ao outro para brincar. Mas brincar é estar disposto à proposta do outro, ao olho no olho, às condições emocionais de cada um, às condições locais[8], aos problemas técnicos, à platéia e, principalmente, disposto a se divertir.

E por falar na platéia, o jogo, a brincadeira, só se realiza diante dela, para ela e com ela. O ator-manipulador do In Bust não joga bem se não jogar também com a platéia. Há um respeito profundo pela participação do espectador nos espetáculos do grupo e é do atuador, como responsável primeiro da obra ao vivo, a manifestação desse respeito e o fazê-lo envolver-se.

 

Paulo Ricardo Nascimento

In Bust Teatro Com Bonecos

Da pesquisa “Teatro COM Bonecos, como atua o atuador do grupo In Bust e outras possibilidades”, desenvolvida pela Bolsa de Pesquisa, Experimentação e Criação do Instituto de Artes do Pará em 2009.

 

 Referências bibliográficas:

 AMARAL, Ana Maria. O ator e seus duplos: máscaras, bonecos, objetos. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2002.

Balardim, Paulo. Relações de vida e morte no teatro de animação – Porto Alegre: Edição do Autor, 2004.

BELTRAME, WALMOR NINI (Org.). Teatro de Bonecos: distintos olhares sobre teoria e prática – Florianópolis: UDES, 2008.

Bornheim, Gerd Alberto. Brecht: A Estética do Teatro – Rio de Janeiro : Graal, 1992.

Cavalcante, Caroline Maria Holanda. A Interpretação Com o Objeto: reflexões sobre o trabalho do ator-animador, Universidade do Estado de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Teatro, Mestrado em Teatro – Florianópolis-SC, 2008.

Chacra, Sandra. Natureza e sentido da improvisação teatral / Coleção Debates – São Paulo. Perspectiva, 2005.

Jurkowski, Henryk. MÉTAMORPHOSES La Merionnette au XX Siécle / Éditions Institut International de la Marionnette – Charleville-Mézières, 2000 – Tradução de Eliane Lisboa, Gisele Lamb, Kátia de Arruda.

Moreti, Maria de Fátima de Souza. O Ator no teatro de Tadeusz Kantor, pg 148-166. Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas. Jaraguá do Sul : SCAR/UDESC, ano 1, v. 1, 2005.

Parente, José. O Papel do ator no teatro de animação, pg 106-117. Móin-Móin: Revista de Estudos sobre Teatro de Formas Animadas. Jaraguá do Sul : SCAR/UDESC, ano 1, v. 1, 2005.

Pavis, Patrice. Dicionário de teatro – São Paulo. Perspectiva, 1999.

Portich, Ana. A Arte do Ator entre os séculos XVI e XVIII – São Paulo. Perspectiva: Fapesp 2008.


[1] E estarei aí concordado com vários teóricos – Henryk Jurkowski, Caroline Holanda, Margareta Niculesco, Joan Baixias, Walmor Nini Beltrame, José Parente, Paulo Balardim, etc

 [2] Tadeuz Kantor preferia trabalhar com não atores, pessoas sem experiência ou algum trabalho de construção de personagem, o que levava a uma representação de si mesmo.

 [3] Professor no Instituto de Teatro de Barcelona, foi diretor da companhia Teatre La Claca, citado em A Interpretação Com o Objeto: reflexões sobre o trabalho do ator-animador, de Caroline Maria Holanda Cavalcante.

 [4] No caso das encenações do In Bust. Mas poderia ser o braço, os pés e até a boca, como se vê n’O Princípio do Espanto, do Morpheus Teatro 12 de São Paulo.

 [5] Comparo essa atividade a do atuador da commedia dell’arte que se especializava a um único personagem, não importava a trama, se ele seria envolvido num romance ou numa trapaça, se seria amigo ou vilão, dependendo do roteiro do dia, mas seria sempre o mesmo personagem, fazendo-o tanto que já o conhecia por completo podendo compor variações na personalidade deste, mantendo suas características básicas.

 [6] “O ator-titeriteiro cria a personagem, mas depois “se abandona” para coabitar harmoniosamente com ela em um espaço de tempo determinado. Por isso é possível afirmar que o títere é a extensão do seu corpo” (Valmor Nini Beltrame, A arte do ator-titeriteiro).

[7] No caso do In Bust, palco significa o local onde a encenação vai ocorrer, o espaço dos atores na peça, pois poucas são as apresentações em espaços teatrais convencionais.

 [8] O grupo faz apresentações em diversos locais em condições espaciais as mais variadas.

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Responses

  1. Olá, gostaria de apresentar um pouco do meu trabalho que já realizo ha quase 10 anos com Mensagens ao Vivo e animação de festas, vide http://www.happydaysmensagens.com.br Porém, hoje, mesmo realizada com o que faço e tendo reconhecimento por parte dos clientes e da imprensa com matérias e até destaques em Capas de um dos jornais mais vinculados no ES (A Tribuna), sinto que gostaria de empreender novas frentes de trabalho, pois tenho tempo disponível, disposição e necessidade de estar realizando algo novo, por isso estou entrando em contato com pessoas e empresas no ramo de festas e eventos, como vocês, para podermos marcar um horário para uma entrevista, caso haja interesse numa possível parceria! Obrigada e Parabéns pelo trabalho! Elaine.


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