O COM bonecos do In Bust

Preciso ressaltar que a mesma cuíra que me impulsionou hoje para esta pesquisa, provocou em 1997 a utilização da preposição COM no nome do grupo, único a utilizá-la entre os grupos de teatro da área. Então, como meu objeto aqui é a atuação do ator do grupo In Bust Teatro com Bonecos, começo por explicar esse nome porque ele reflete o objeto desta pesquisa: In Bust porque brinca com a palavra embuste, que revela a mentira de dar vida a um objeto inanimado, e ao mesmo tempo, pode ser algo que está dentro do peito (numa tradução grosseira de um inglês raso). Teatro COM Bonecos porque é o que o grupo acredita fazer ao misturar o atuador e o boneco na mesma cena. Henrique Sitchin, diretor da Cia Truks e Coordenador do Centro de Estudos e Práticas do Teatro de Animação de São Paulo, onde o In Bust se apresentou algumas vezes, ao refletir sobre o nome do grupo, comenta que é teatro COM porque o que o grupo faz é teatro e para isso utiliza bonecos[1]. Acha tão apropriado o uso da preposição que levanta até a possibilidade de mudar o nome do seu próprio grupo. No entanto, acredito que haja uma maneira de atuação diferente nos espetáculos do In Bust. E tendo já uma nomenclatura que designa o gênero teatral que utiliza o boneco, é preciso tentar explicar o motivo da mudança da preposição no nome do grupo. Bem, vou ao momento em que se decidiu pelo termo teatro COM bonecos e não mais DE bonecos.

Estandarte no Fio de Pão Cópia

Estandarte In Bust (foto Henrique Sitchin)

O grupo, fundado em 1996, mudou de “sobrenome” duas vezes. Foi, no início, Companhia de Animação, pois acreditava que iria enveredar pela abrangência da linguagem[2], mas permaneceu na utilização do boneco. Porém, mudou de nome pelo simples fato de que o público de Belém do Pará não entendia o emprego da palavra ANIMAÇÃO[3]. Virou, então, In Bust Teatro DE Bonecos.

Como a idéia inicial era trabalhar com o boneco como o foco principal da cena, o grupo experimentou a função do manipulador ausente[4] no primeiro espetáculo montado, “Mini Minutos de Fama”. Os 4 atuadores completamente de preto, incluindo luva, boné e óculos escuros – que revelava, entre uma ou outra intromissão da luz, parte do rosto abaixo do nariz – estavam apenas concentrados no que suas mãos faziam àqueles objetos. Imbuídos da função de manipuladores. Trabalhando técnicas de manipulação direta, marote, fio e vara, misturando essas técnicas. E, entre uma ou outra cena, revezavam nas funções de sonoplastia e operação da iluminação.

Acredito que um grupo que tem atividade permanente, mantém repertório ativo, com apresentações constantes, com as mesmas pessoas atuando juntas por um determinado tempo, é personificado pelos indivíduos que o compõem. Todos que estavam em cena traziam consigo algumas poucas experiências, com o teatro de animação, manipulando bonecos. Porém, todos os integrantes “inbusteiros” passaram, antes de serem “inbusteiros”, por experiências significativas como atores. As pessoas do grupo brincam, quando hoje falam da linguagem que desenvolvem, que a energia que levou o atuador para a cena enquanto personagem (mesmo que esse personagem ainda não existisse na peça estreada) tirou o manipulador da função pura e o transformou em ator-manipulador.

Desde o início da existência do grupo alguns foram os atuadores que passaram pelas montagens, mas fomos eu (Paulo Ricardo Nascimento), Adriana Cruz e Anibal Pacha, que partilhamos e continuamos a partilhar juntos as experiências de apresentações do repertório, as vezes com outros atuadores, mas sempre juntos.

Mas, não foi, a grosso modo, apenas a necessidade de aparecer que fez com que o manipulador saísse do escuro e dividisse, vez por outra, a cena com o boneco – algumas vezes com o boneco que ele mesmo estava manipulando. Hoje o grupo entende que a dramaturgia que se configurava naquele espetáculo exigia a presença do personagem do ator. Ele era um coadjuvante, alguém que vinha para trazer um objeto importante para a cena, fazer uma contracena rápida, ou costurar uma cena com a outra, enfim, facilitar a trama dos personagens bonecos. Porém o personagem do ator, com as minúcias que se requer de um personagem, não apareceu, apareceu apenas a necessidade de ter alguém que fizesse o que precisava ser feito e foi o que o ator passou a fazer.

O espetáculo se transformou depois da primeira temporada. Introduzida a nova função, essa versão ficou, do ponto de vista da mecânica da atuação, fluida, para quem via e para quem fazia. Ficou tão fluida para os atuadores, que com o passar das apresentações, era possível fazer o espetáculo com duas pessoas em cena apenas. Em caso de precisão, um operador de luz, pois a iluminação era basicamente um recurso para esconder o manipulador e a encenação também não carecia mais disso. A prática que foi adquirida nos movimentos entre as funções da cena, tornou os atuadores presentes e neutros tanto quanto fosse necessário, possibilitando levar o espetáculo para lugares abertos.

Até o segundo espetáculo, “Aftasardendöen” e entre algumas experimentações, o modelo apresentado foi esse. O atuador sempre vestido de preto, visível ao público, presente e neutro, interferindo na dramaturgia apenas quando necessário. Mas, sem o personagem do ator.

Após uma pesquisa sobre a entrada da literatura de cordel no Pará, com muitas referências do nordeste do Brasil misturadas com referências da Amazônia paraense, o grupo criou o espetáculo “Fio de Pão, A Lenda da Cobra Norato”, no final de 1997. Durante uma temporada, bem depois da sua estréia, o personagem do ator se exigiu presente. A idéia parecia estar na nossa frente o tempo todo e a ficha caiu. O grupo deu passagem para esse sujeito.

Jandira persegue o galo (Girino) (foto - André Mardock)

Jandira persegue o galo (Girino) (foto - André Mardock)

Todas as referências colhidas para essa montagem, somadas ao que o grupo já vinha fazendo em cena, resultaram nessa idéia. Mas ainda era um elemento estranho para o In Bust. E mais: o personagem do ator que iria manipular o personagem do boneco não poderia ser o centro da encenação, pois a história que seria contada, a lenda da Cobra Norato, era dos bonecos. Porém, o ator teria um personagem tão importante quanto o personagem do boneco, pois sendo uma família de retirantes nordestinos trazendo sua arte para as praças do Pará, estariam contando um fato tirado da realidade e que, no jogo do espetáculo, interferiria diretamente na cena do boneco[5].

Com algum trabalho (o qual pretendo tratar de alguns aspectos mais adiante) o grupo conseguiu uma relação harmônica entre ator e boneco, mas o espetáculo ficou no limbo da categorização. Não era de ator e nem de boneco. Era isso mesmo?! Que tipo de teatro é esse? E os atuadores são manipuladores, atores, atores-manipuladores? O boneco é então apenas adereço? Onde está a trama, nos personagens atores ou nos personagens bonecos? O grupo entrou em crise? Não, deixou pra lá a crise, continuou fazendo teatro, que era mais divertido, mas não perdeu de vista nenhum dos questionamentos.

D.Menina conversa com o "seu" Jovino (foto - André Mardock)

D.Menina conversa com o "seu" Jovino (foto - André Mardock)

Uma certeza existia: aquele era um espetáculo diferente. Pelo menos para o grupo. O público pareceu também ter a mesma impressão[6]. A atitude foi inscrever em um festival de teatro de bonecos. Não foi aceito, pois era um espetáculo de atores. Então foi inscrito em festival de teatro. Não foi aceito, pois era um espetáculo de bonecos. Era realmente diferente.

Nos processos de montagens seguintes o personagem do ator sempre aparecia. Quase sempre ele só aparecia depois da estréia. De certa forma o grupo se adaptou à necessidade e ao conseqüente surgimento desse personagem, mas sempre questionando a importância dele na dramaturgia. Sempre questionando o fato de ele não aparecer na peça escrita. Sempre questionando a relação entre ele e o boneco.

As respostas que foram aparecendo no processo do trabalho levaram a trocar a preposição “De” pela preposição “Com” entre as palavras Teatro e Bonecos, no sobrenome do grupo. Virou In Bust Teatro Com Bonecos. Essas respostas também revelaram um possível desenvolvimento de uma linguagem. Nos espetáculos do repertório do grupo aparecem características relacionadas a essa mistura que identificam para o público o fazer do In Bust, possivelmente geradas por essa mistura, como o caráter ridículo do ator em contraponto à poesia do boneco, por exemplo.


[1] A Possibilidade do Novo no Teatro de Animação, Henrique Sitchin, pg 10.

[2] Referente ao termo Teatro de Animação que abrange a utilização de bonecos, máscaras, objetos, sombra, formas, etc.

[3] O grupo foi diversas vezes convidado para animar eventos, como aniversário, inaugurações, etc. O público achava que o grupo era formado por palhaços, mágicos, dj’s.

[4] No sentido de estar escondido pelo figurino preto cobrindo quase que completamente o seu corpo e ainda pela iluminação concentrada no boneco. Escondido o manipulador, dava-se a sensação de autonomia ao boneco.

[5] As relações entre os membros dessa família de retirantes impunham um paralelo de acontecimentos entre os personagens da lenda, pois os bonecos acabavam por refletir a personalidade dos personagens dos atores-maipuladores.

[6] O público afirmava não ter visto ainda nada parecido.

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